sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Maternidade ou O presente

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Casara-se novamente. Alberto. Vida nova. Vida que teria que se adaptar. Alberto não passava de um cara que agora estaria permanentemente aqui.
Minha mãe cansara do meu pai.
Essa verdade não doía mais: papai realmente era uma cafajeste. Mas era meu pai. Meu herói até os meus dez anos. Ele sempre me colocava no colo.
Papai realmente me amava com furor. Intensamente.
Saudades.
Lembro quando descobri que ele partiria. Chovia muito nesse dia. Um dilúvio dentro de mim.
Nunca mais teria seu abraço ao dormir.
Queria guardar seu calor para sempre, mas a noite esfria. Congela.
O casamento com o Alberto foi uma cerimônia simples e discreta. Cartório, depois um jantar entre amigos e familiares. Vovó era do contra, para ela casamento era apenas um. Achava aquilo um despropósito.
Não pediram minha opinião sobre. Tinha mágoa. Alberto era um estranho. Nada mais do que isso.
Na noite daquele dia choveu. Uma chuva fina. Mas a lua ainda brilhava por trás das nuvens.
Fazia frio também.
Adaptação. Habituar-me ao café da manhã. Tortura matinal. Odiava aquela aura de felicidade que irradiava da mesa.
Queria morar com meu pai. Mas onde ele estava ninguém sabia ao certo. Distância. Saudades. Vivia no meu mundo. Vivia com as minhas lembranças. Era mais seguro.
O primeiro inverno que atravessamos foi frio. Polar.
Chuvas constantes. Dias perdidos. E a mágoa crescendo. E o ventre crescendo.
Meu irmão se anunciava por esse tempo. Felicidade geral. Ninguém conseguia acreditar. Depois de quinze anos eu ganharia um irmãozinho. Eu deveria compartilhar da mesma felicidade?
Roberto. Ele já tinha até nome.
Alberto não cabia em si de tanta alegria. Eu não partilhava da nova família.
Nove meses completos. Nascera meu irmãozinho. Perfeito. Tinha dez dedos nas mãos e nos pés. Cativou a todos.
Minha mãe era mãe de novo. E dessa vez ela seria mãe. Olhos que se voltavam para dentro: edificava, fortificava meu castelo.
Vovó parecia vó de primeira viagem.
Há dezesseis anos não fora assim. Apenas papai era pai de desmaiar no parto. Ele me deu à luz.
O bebê tomava o tempo de todos. Minha mãe era mãe 24 horas. Mal a via.
Alberto. Roberto. Um era a cara do outro, mas apenas um eu conhecia.
Alberto e eu agora nos conhecíamos. Ele não era meu pai. Nem nunca o substituiria, mas ele sabia como preencher o vazio.
Mamãe na sua ausência. Alberto na sua totalidade. Os cafés da manhã eram prazerosos. Pernas que se encontravam, sabiam caminhos que a fala não conseguiria percorrer.
Noites que não eram mais tão frias.
Aniversário do Beto. Ele já não ocupava todo o tempo da minha mãe. Equilíbrio que se restabelecia.
Nova rotina.
Cafés apressados na cozinha, às vezes, no banheiro. O Beto já corria por toda a casa. Testemunha ocular das tardes quentes de verão.
A lembrança do papai ia longe. Desaparecia com a ausência. Eu era órfã por constatação.
Os dias que se passavam pareciam premissas de dias melhores. Necessidade de ser reconhecida. Eu tinha o meu valor.
Porém Alberto não encontrava mais o caminho das minhas pernas. Os cafés eram tristes. As refeições sem sabor. As noites frias.
Minha mãe engravidara de novo. Útero fértil. Útero maldito. Semente maldita.
Ciúmes.
Mais nove meses. E num dia de chuva forte nascia minha irmãzinha. A menina dos olhos de Alberto.
O fogo queimava-me as entranhas. O solo da infertilidade morava comigo?
A mágoa crescia assim como o amor de todos pela nova criatura. Criei aversão àquele ser. Um sentimento de indizível poder brotava em mim.
Eu não compartilhava dessa nova família.
Mamãe era mãe 48 horas.
Alberto era pai. Era pai de uma menina. Eu queria ser amada. Minhas pernas já não encontravam o caminho certo há vários meses.
Eu definhava e ninguém via.
Alberto agora me chamava de filha. Ele nunca fora meu pai. A raiva ruborizava a minha pele.
Revolta. Eu era mais do que filha. Era mulher. Era vida.
Mas a vida que eu não conseguia oferecer, minha mãe podia quantas vezes quisesse. Solo fértil. Solo abençoado.
Eu seria irmã outra vez. O ciclo que se renovava. Mas o tempo não era aliado. Minha mãe acabou morrendo no parto junto com o bebê.
Alberto ficou inconsolável. Eu não chorei sua morte. Fora uma fatalidade, o que eu poderia fazer? Não desperdiçaria lágrimas.
Amor que me doía como em doença. Meus braços eram ninhos de esquecimento. Minha boca caminho do amanhã. Meu ventre a promessa de um futuro.
Mas provavelmente o solo da infertilidade morava comigo. Eu era um Saara. E isso não o fazia esquecer a sua menina. Ela era o fantasma genético da minha mãe.
Essa semelhança me causava horror. Mas não me arrependeria. Eu amava o Alberto. O amor não era crime. Eu não era uma serpente. Eu era mulher.
Vovó aparecia de vez em quando. Ela dizia que não me reconhecia. Achava uma falta de moral e de respeito com a minha mãe, Alberto e eu juntos.
Eu amava e seria implacável.
As noites esfriavam cada dia mais. Alberto quase sempre dormia no quarto dos filhos. Mas seus olhos vigilantes eram para a sua doce menininha.
Ela tinha dois anos. Mas era a flor da casa. Beto era esquecido. Ele não ocupava mais seu lugar de homem. A atenção era toda dela.
Adoeci de amor. Ceguei de ressentimento.
Eu queria ser amada, mas aquele lindo fantasma impedia que isso acontecesse.
O aniversário de Alberto se aproximava. Ele me tratava com extrema frieza. Seu colo agora pertencia a sua adorada garotinha.
Não haveria nenhum presente que o trouxesse de volta para mim. Meu corpo reclamava o seu. Suas roupas tinham manchas de batom vagabundo.
Eu não iria admitir ser descartada. Mas se isso era o que ele queria, ele iria ver.
Preparei todos os detalhes para uma festa surpresa. Beto nunca parecera tanto com o pai quanto agora. Ele me adorava.
Juntos preparávamos tudo. E na minha cabeça o detalhe mais importante ainda estava por vir. Não cabia em mim de tanta ansiedade.
Arrumei as minhas malas e as do Beto. Iríamos embora. A festa seria mesmo uma surpresa.
Minha adorável irmãzinha não se aproximava muito de mim. Parecia ver em meus olhos a doença que me corroía por dentro.
Beto brincava trancado no quarto. Nós duas estávamos sozinhas. Tínhamos decorado a sala. Depois a chamei até a cozinha. Mostrei-lha a caixa onde colocaria o presente do “papai”. Ela sorriu-me.
Vi mamãe sorrir, mas não voltaria atrás.
Muni-me do cutelo e tranquei a cozinha. Usei-o. Depois de usá-lo, embrulhei o presente. Coloquei-o dentro da caixa e limpei toda a cozinha.
Coloquei sobre o centro da sala o presente do Alberto sob a faixa de “Feliz Aniversário, Papai!”
Beto e eu partimos antes que Alberto chegasse do trabalho. Atravessamos a rua debaixo de chuva. A rodoviária não ficava muito longe.
A dor do amor ardia-me no peito. Mas eu iria para longe. Meu filho e eu. Iríamos nos curar.
Amar não era pecado. Se eu fizera o que fizera fora por amor.
Talvez Alberto não entendesse o significado do meu presente, mas meus braços eram ninhos de esquecimento, minha boca caminho do amanhã e meu ventre a promessa de um futuro.