quarta-feira, março 06, 2013

O olho roxo

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Diante do espelho examinava o olho roxo. O pensamento ia longe. Pensava em coisas distantes. Deixara muitos planos para trás. E aquele olho roxo... Pensava no que tinha feito da vida para merecer olhar-se no espelho naquelas condições.
Chovia forte. Os pingos de chuva batiam forte no telhado. Estava sozinha em casa com aquele olho roxo.
Os móveis, testemunhas silenciosas, olhavam para ela enigmáticos. O espelho apenas dizia a verdade.
Por que não chorava de uma vez e acabava logo com aquilo?
Lembrava de tanta coisa. Deixara tantos sonhos de lado. Seguira o seu coração quando sua razão dissera para esquecer. Por que não esqueceu?
Teria sido mais feliz e lembrava-se dos primeiros anos de casamento.
Ele a tratava tão bem. Era tão atencioso.
Refletia tudo e no final não conseguia esquecer aquele olho roxo que a analisava do espelho.
Casara-se por amor. Na pura inocência das garotas de vinte anos da sua época. No fundo queria ter nascido muito tempo depois.
Amava aquele homem. E agora, e com aquele olho roxo? O que mais veria roxo?
Amor... Amor... Amor...
O espelho era conhecedor de cada detalhe daquele quarto. Desde a noite de núpcias até aquele olho roxo.
A festa simples, a cerimônia simples. Tudo fora como planejara, apesar das intromissões da sogra. A casa escolhera em conjunto. Os móveis cada um escolhidos a dedo. A cor das cortinas... Tudo fizera como mandava o figurino.
O quarto, as flores, as velas. O lençol de linho branco que denunciava sua virgindade. Anos e anos de perfeição.
Tudo era milimetricamente planejado. Menos aquele olho roxo.
O que fizera para merecer?
O que não fizera direito?
O olho a observava mudo. Mas ao mesmo tempo lhe fazia inúmeras perguntas sem respostas. Como responder a perguntas que nunca se atrevera antes a fazer?
Tudo a fitava. Esperando que tomasse alguma decisão. Alguma atitude.
E olhava tudo de volta com tristeza.
A chuva caía lá fora indiferente ao que acontecia dentro de sua casa. Bem no interior.
Estava sozinha.
Aonde teria ele ido àquela hora?
Sentia-se culpada.
Naquela chuva impiedosa estava ele a vaguear enquanto que ela era obrigada a ver a culpa diante do espelho.
Por quanto tempo ainda teria a prova diante dos olhos?
Aquilo a incomodava.
A chuva lá fora tomava conta do mundo.
Não se sentia tão importante protegida dentro da sua casa. Os móveis, as cortinas, o espelho. Tudo esperava que ela dissesse algo.
O quê?
Não conseguia sair da frente do espelho. E nem conseguia adiar as lágrimas que começavam a surgir.
Por que choro? Por que me desmancho assim feito areia da praia? É apenas um olho roxo... Todos perdem a cabeça. Até você quando gritou com o Betinho, coitado, o que ele fez para merecer seus gritos? Todo mundo um dia perde a cabeça...
E chorava...
Aquele olho roxo era muito mais do que apenas um olho roxo. Era a prova do que há muito tempo negara-se a ver.
Mas que diferença isso faz agora? Que diferença? Agora é tarde. Olha pra você, o que vai fazer se se divorciar? Para onde você vai? De que vai viver?
Esqueceu o que a sua mãe te ensinou: erguer a cabeça e fazer de conta que nada aconteceu? Mas como?
Esse olho roxo olha pra mim e eu pra ele... Nos olhamos e eu não consigo gostar dele. Como me acostumar? Não quero me acostumar com tudo. Não quero ser mais um ser humano que se acomoda com a situação.
E chorava...
Chorava sozinha diante do espelho, diante do seu olho roxo, diante dos móveis, diante das cortinas, diante da cama.
O que aprendera não queria. Seu olho roxo lhe dizia isso.
Para quê? De que adiantou ser a esposa perfeita?
Chorava aos soluços...
Talvez se eu ligar para a minha filha ou para o meu filho eu me sinta melhor, mas o que você vai dizer? Que apanhou do seu marido, que o pai exemplar de vocês bateu em mim? O que eles têm a ver com isso? Esse problema é só seu e dele. Só nosso. Ele vai se desculpar... ele vai se desculpar...
A chuva caía indiferente a tudo o que acontecia na cidade e dentro de cada lar.
Mas aquele olho, aquele simples olho roxo, dizia tanta coisa, clamava por tanta coisa... E a possibilidade de que haveria um pedido de desculpas o silenciava.